Todo o ser humano tem uma enorme facilidade em dizer sim, o sim sempre vem mais fácil que o não, pelo menos para mim isto se trata de uma realidade (apesar de anos de terapia). Vamos imaginar uma situação colocada por um colega outro dia, nós sempre temos a aprender com as situações vividas por terceiros, alias é mais saudável e fácil ver de fora do que vivenciando o calor do momento.

Voo noturno, aeroporto congestionado, idioma dos controladores de voo mais parecido com uma mistura de aramaico com latim, chuva forte reduzindo a visibilidade, iluminação das taxiways estilo lanterninha, mais escuro que um buraco negro e trafego super intenso, parece familiar?

Após o pouso a rota prevista de táxi seria uma taxiway paralela a pista de pouso, fácil. Após o pouso e debaixo do diluvio a instrução de táxi muda para uma curva a direita, o colega inicia a curva e ambos, ele e o pilot monitoring julgam estar muito apertado para fazer a curva determinada pelo ATC, muito curto mesmo, primeira iniciativa: STOP!

Solicitam outra instrução de táxi, o ATC manda completarem a curva de forma sucinta e ríspida, desta forma pressionando os pilotos a fazerem a curva, rapidamente ambos discutem o caso, se fosse de dia, seco, com visibilidade boa poderiam até tentar, mas naquela situação e olhando o Safety side, NO!

Solicitam outra instrução de taxi, o ATC desta vez de forma ríspida e firme repete a instrução e informa ser mandatória, a resposta dos pilotos? UNABLE TO COMPLY! Outra voz assume a fonia e o ATC revisa a instrução anterior e agora prove uma rota de táxi mais adequada a situação na visão daqueles dois pilotos. Um non event que poderia se tornar um avião atolado, luzes de táxi quebradas ou mesmo uma curva apertada porem bem-sucedida.

Voltamos ao PAN-PAN e ao MAYDAY, ambos são usados em situações não convencionais, de urgência ou emergência, são como um SIM ou um NÃO numa situação de pressão. Pensar em consequências de longo prazo (exposição da marca, ATC, inconvenientes, será que estou certo? Ida até a chefia para explicar) ou em consequências após o evento não cabem nunca em um processo decisório de qualidade. Na cabeça das pessoas que decidem, no caso de aviação, a decisão só tem um lado e uma abordagem única: Segurança de voo e ponto final.

O que vem depois já está decidido e será levado em consideração após a situação resolvida, avião parado, motores cortados e passageiros desembarcados com segurança. Um piloto de qualidade e competência, com treinamento e proposta adequados ao papel que se propõe a desempenhar, em momento algum pode e deve se desviar deste destino básico.

“Ah, mas vou perder meu emprego se agir assim”: se este pensamento já cruzou sua mente será que não esta na hora de você pensar em mudar de empregador? Mudar de ares? Quando alguém ou alguma corporação nos obriga a pensar de uma forma com a qual não concordamos ou que não é nossa proposta, sem duvida, fica muito mais fácil dar um até logo e buscar quem nos permita agir da forma que escolhemos. Não permita nunca que estas escolhas sejam feitas por outros porque no final, se der errado, a responsabilidade da decisão será somente sua.

About The Author

Rafael Santos , marido da Samira e piloto de linha aérea desde 1982 , voando E-110/F-27/ Electra II, B727,B 767, DC10, MD 11 e B 777 . Atualmente na Korean Air , instrutor de Rota, Simulador e com passagens na gerência de treinamento e fatores humanos , trabalhei junto à U.T ( University of Texas, Austin) na área de Human Factors , cursos na ICAO , na Embry riddle , bem como na UNISUL. Mais de 25.000 horas de voo, 370891 noites sem dormir voando , 879654 catrapós realizados , 76904 sanduíches a bordo. Corintiano e faixa preta de B.J.J.

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