Eu simplesmente amo quando me perguntam o porquê eu decidi ser piloto: decidi ter uma vida plena. Lembro-me de quando tinha 15 anos, ouvi uma parente da família falar sobre quantos lugares ela conheceu e morou pela empresa que trabalhava. Ali decidi que queria ser um dos melhores profissionais que eu conhecesse, e meu maior sonho então seria viajar a trabalho.

Desde então busco entender quais os pilares do aviador pleno. Entendo que um aviador, quer ser aviador para estar acima de algo, isto se analisado por um âmbito psicológico. Mas recentemente entendi que se trata ainda de um ponto chave: confiança. E para uma carreira onde aprendemos as coisas a 130km/h, vivemos a Mach .78, estamos constantemente em ambientes diferentes, culturalmente e espacialmente, a coerência nestes pilares é essencial para que haja um desenvolvimento pessoal e profissional pleno.

Corpo, Mente e Espírito

O corpo é base para tudo aquilo que se realize. O corpo na vida aeronáutica é quase que o maior patrimônio que você tem, pois este em mal funcionamento, invalida o melhor treinamento recebido.

A mente é o autoconhecimento. Por diversas vezes já falei aqui sobre Sun Tzu: conhecer a si mesmo, e o seu objetivo, é a garantida de vitória. Quem acompanha o Aeroagora, sabe o quanto gosto ainda de livros de desenvolvimento pessoal, neurociência, inteligência emocional e itens relacionados. Isto em si, não tem nada a ver com aviação, mas encontrei na leitura e na escrita o que eu almejava para os meus 20 e tantos: um conhecimento das minhas limitações pessoais, e o interesse por uma contínua evolução.

O desenvolvimento do espírito não tem haver necessariamente com uma crença em uma determinada religião, mas sim com o contato íntimo com o mistério supremo. Há quem encontre-se em suas orações e meditações o poder do abandono de identidades limitadas que somos, para um despertar consciente do aqui e do agora.

Os três itens são uma base estrutural para a formação do íntimo do indivíduo. Promoverão, força de vontade e autocontrole, que garantirão foco.

 

Relacionamento, Social e Networking

Relacionamento trata-se de alguém que você tenha para se confidenciar. Vezes amigos, vezes sua família. Reza uma lenda que somos regidos por 5 pessoas, que nos influenciarão diretamente e a nossa personalidade, respostas e aos estímulos da vida nos proporciona. Pare por um momento e pense: quais são as cinco pessoas da sua vida que influenciar quem você é? Um mal relacionamento corresponde a 20% daquilo que você é. Assim como uma alimentação deficiente, um relacionamento desgastado, ou mesmo uma pessoa importante para você sem o devido valor reconhecido, lhe trarão doenças como ansiedade e depressão, que invalidarão o corpo e por consequência atingirão todos os outros elementos desta cadeia. O CRM por si só se trata de relacionamento.

Quando foi a última vez que conversou com um amigo de fora da aviação sobre algo que não fosse avião? Nós temos uma tendência de que quando decidimos por ser aviadores, trocamos os nicknames para ‘cmtefuladodetal’, só curtimos páginas de aviação no Instagram, e só postamos fotos olhando para o horizonte dentro de um cockpit, ou até do cockpit. Isto é belo, demonstra o amor a profissão. Você não vê por aí um estudante de engenharia postando um concreto fibroso ‘dahora’ ou um estudante de medicina postando cirurgias. Mas tenhamos empatia agora: como aquele amigo de infância que está estudando qualquer outra área, gostaria de falar conosco sobre qualquer outra coisa além de salário de piloto, avião, aeroporto ou o ‘Airbus da Gol’? As vezes eles se distanciam, porque só falar de avião (para eles) é chato, e estamos tão mergulhados no nosso mundo, que esquecemos que há algo que se contemplar lá fora.

Da mesma forma, queremos tanto conhecer pilotos, histórias, experiências, que acabamos por desenvolver demasiadamente nosso networking.  Temos em nossas redes sociais uma série de pilotos adicionados, tornando o Facebook e o Instagram uma espécie de Linkedin. Mas quais pilotos do seu networking efetivamente sabem em que fase do treinamento você está? Ou se já formado, quais sabem aonde trabalha, ou que características profissionais tem?

Conhecimento e Sabedoria

Parece a mesma coisa, né? Na realidade, sabedoria trata-se de racionalidade, moderação, humildade de entender que não é possível saber de tudo. Um piloto em formação começa a carreira adquirindo conhecimento, ou seja, recebendo informações. Ele estuda os cinco temas base da formação aeronáutica, e desenvolve suas habilidades práticas nas horas de voo. Quando estiver formado, este piloto torna-se sábio, que é o know-how, a fluência de voo, a habilidade de fazer muito com o conhecimento pouco que se tem.

Então, quando buscamos conhecimento, estamos ampliando nossas mentes a uma ideia nova, que eventualmente tornar-se-á em sabedoria. A diferença de um comandante de um jato intercontinental e um piloto em treinamento inicial em um mono motor á pistão, por vezes é mínima, tratando-se de conhecimento é claro. Ambos podem conhecer os sistemas complexos de uma aeronave, mas ambos podem levar um 777 de Dubai para Incheon em segurança? Aqui entra a sabedoria.

Um piloto 100% sábio é um excelente ‘pé e mão’, um piloto 100% conhecedor é um piloto estudioso e teoricamente preparado, com aquele quê de domínio e maestria que é incrível de ouvir. Um piloto 50/50 é o ideal. Ambos extremos trazem riscos à segurança de operação.

Financeiro e Profissional

Durante a formação do piloto, ele se encontra com diversas limitações financeiras. Vezes por sua renda é insuficiente para manter um ritmo de treinamento, ou vezes mesmo tendo os recursos, ele não planejou corretamente os passos.

Quando chega a linha aérea, sente que chegou ao topo, para de se estudar, de se desenvolver. Recentemente ouvi de um comandante brasileiro da Korean Air, que ‘antigamente para você se tornar piloto tinha de ser técnico, hoje tem que ser doutor’. Entenda que o doutorado não é o título, mas a gama de conhecimento que tem. Com planejamento financeiro deficiente, seu campo profissional torna-se falho. Hoje bom, em 10 anos estagnado. Logo, a aviação será a culpada de sua frustração.

UFC de Realidades: Dificuldades e Realidade

Rapaz, eu amo ouvir gente chorando porque não tem dinheiro para pagar as horas de voo. Porque aí eu chego com os pés no peito: ‘O que você faria para viver a vida que sonha? Trabalharia enquanto eles dormem? Estudaria enquanto eles se divertem? Persistiria enquanto eles reclamam de ser muito difícil?’ É muito fácil abrir a boca para reclamar das dificuldades da vida. Entenda: você tem o poder único e singular de se tornar aquilo que você quiser ser!

Quer ser estudioso? Desenvolva o hábito de leitura. Quer voar bastante, mas não tem muita grana? Pare de contar lamúria, de se fazer de vítima, procrastinar suas metas e se sabotar! Você é capaz de exercer o perfeito equilíbrio dos elementos que falamos aqui, e como resultado ser um piloto equilibrado, eficiente, preparado e realizado.

Mas vá com calma! Comece por um item, crie um plano de ação, solidifique as ações.. E parta para o próximo item. Continue, e não pare. Pano preto existirá, mas estudo e preparo o extinguirão. Lembre-se: os maus aviadores passam, a aviação fica. Eu simplesmente não admito que sejamos aviadores abaixo do nosso maior potencial. Sejamos então, aviadores plenos.

Fly Safe, Folks.

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